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domingo, 20 de março de 2011

Abismo em carne viva

Existem muitas imagens difíceis de ver e procurar, mas é preciso. Quando muito pequena, perguntei pro meu irmão: - Nós matamos os animais pra comer? . Ele disse: "Não, quando eles morrem naturalmente, de velhinhos, é que usamos sua carne". 
É ridículo confessar que acreditei nisso durante muito tempo, julgando que criavam bois em uma fazenda feliz pra depois, quando morressem naturalmente, recolhessem pra alimentação. 
Hoje em dia temos muita informação, mas antigamente era um problema. Imagine ainda em uma família que têm carne todos os dias e vê caminhões da ricca passando com desenhos de galinhas felizes =s.
Depois que meu irmão me respondeu isso, fiquei pensando porque então não comemos carne de pessoas que já morreram, sei lá, de um avô morto por ex. ''de repente nossa carne não é comestível (...)". E cheguei a ler também: "Não podemos comer carne de animais mortos por velhice etc. pela doenças que podem ser causadas (...)". Até concordei um pouco e escapei ainda ao pensar que não é algo horrível comer carne, já que jesus comia peixe. Escapismos de merda, confesso². Depois, já tendo parado de comer carne, li um pequeno livro (quase que folheto) com perguntas  feitas por para Srila Prabhupada (fundador da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna e responsável por trazer a mesma filosofia para o ocidente) que continha algo muito interessante:  comemos comidas feitas de várias formas, inclusive estragadas propositalmente. Tem uma porrada de exemplos desse tipo, além de lembrar que bebemos bebidas prejudiciais, fumamos cigarros e outras coisas que também não são "apropriadas". Coca-cola por exemplo, cadê o benefício? É bizarro. Desconhecemos pelo menos 70% do que é constituído as coisas que compramos e comemos! 
Enfim, não gosto de interferir no livre-arbítrio de ninguém e nem mesmo julgar as pessoas, não faz sentido fazer algo assim se a sociedade ocidental inteira alimenta nossos pensamentos com essas coisas. 
Acho que também seria legal colocar os malefícios da carne e tal, só que ao mesmo tempo perde o sentido da questão da matança, toda aquela questão da dor que cada ser vivo sente. Dizem que o mais importante é nossa consciência - mas como se não temos informação?
 




Abismo cercado




No mundo grosseiro existe uma intensidade que se renova, mas não deixa
de ser um maldito círculo, e por que não dizer "Circo"? Aberrações,
sons que fazem seu fígado tremer, dias testados em um laboratório falsário,
imagens distorcidas de coisas ao contrário, herois e vilões de mentira, bichos escravizados (...) e ainda sim pagamos pra ver tudo isso, mesmo caro - mesmo sabendo que nos atrasará. É divertido fazer parte de um circo, assistir palhaços e, enfim, eles não tem uma vida - e é nós que a forjamos. Agora é uma condição para continuar indo e vindo sem atraso no que agora parece exterior, mas
sempre será um interior esquecido, desconhecido - um inconsciente que ninguém
quer ser pontual...
A intensidade não é grossa, a intensidade depende da entrega. A entrega
é tão fácil se não misturamos com nossos propósitos... E é tão difícil nos entregar a nós mesmos, admitir o mundo sem nos distanciar ou conseguindo desatar tantos nós, como é difícil fechar os olhos se andamos em uma corda suspensa no céu, meu Deus, quando vamos nos libertar até das metáforas?

O sutil é uma sensação, a ternura é um estágio da liberdade pouco explorado.
Preferimos explorar a liberdade de outras formas, marginalmente, imitando
uma democracia ilusória até desgostar da realidade.

A continuidade não existe, os pedaços quebrados se estilhaçam, que
sentido fará o que não existirá daqui a 20 anos?
A existência não é uma piada, mas mesmo assim é de mau gosto, solvida
em crenças que no final das contas são apenas uma insegurança agindo como
um camaleão, só não indefeso por isso. 

Consigo perceber algumas coisas agora e assim outras vão pra casa do caralho,
logo sou apenas um sonho que teme nunca virar realidade.






terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Tem lugar na janela?



Exploded Head, Salvador Dali

Acho que o momento mais atordoante é quando se acorda. Tudo tem que se encaixar, tem que se encaixar. Da onde veio isto e isto e para onde hoje vai parar. Dor na cabeça e banho gelado para o banho gelado de dor de cabeça anterior, como mesmo?

Outro grande momento é contemplar estes momentos. Acho que afinal faz bem sentir que não é o único, aí, que acorda com dor de cabeça e montando o quebra cabeça do mundo, por sinal, nestes mesmos momentos.

Para doses de normalidade como essa, é melhor não ter pressa e com a visão desfocada, deixar para trás o estúpido que deixou o coração por alguns momentos acelerado. Por que agora é estúpido, tanto quanto comer uma barra de chocolate vulgo glicose.

Outro momento interessante de se comentar sobre o próprio estado de contemplação é que, mesmo por pouco tempo, faz o tempo parar. Ele não pára, mas parece o seguinte: parado, você foca seus olhos e lê, vê, o que for. É a beleza do sentimento, normalmente interno-pessoal, que se quer aproximar.
Fica-se tanto tempo naquele mesmo estar, sem desgrudar, pois o que há de melhor do que ver a beleza de não precisar expor, só contemplar?

Começa-se a pensar nas mudanças que o tempo acarreta como a natureza feroz que em dados momentos se traveste de destino e em outros, o acaso, nada mais.
Nada é realmente belo na mudança ou só se vê beleza quem a acolhe, entende e olha, os olhos podem brilhar outra vez, outro dia. O sorriso virá novamente e contemplarão outros, mesmo sentindo este mundo um derradeiro, as mágoas são apenas instáveis, e só. Pois está só e ninguém precisa te lembrar de nada.
E você não precisa se lembrar de nada, o relógio são suas vontades, isso vale para responsabilidades e a chamada alegria.

Devia olhar mais para o relógio e não fingir que olha, não precisa mesmo tentar precisar da vida. A graça é não precisar, a passagem é paga em prestações e é bom continuar. Pois você é dono do seu tempo e as mudanças, elas se encaixam com o que pretende, bem no fundo.

Prefiro perguntar quase afirmando, com um belo sorriso de quem ouve pássaros e arrumando o cabelo com uma mão, pois a outra ocupada
leva a bagagem essencial, corando o rosto:
Tem lugar na janela?

- Rumo à vista e aproveite, pois este é o estado mais interessante de quem, sábio, é capaz, a contemplação.







* Ce sont les mots qui existent,
ce qui n'a pas de nom n'existe pas.
Le mot lumière existe, la lumière n'existe pas.
Francis Picabia.









(- Carolina.)